Homenagem ao Mestre Quintana


Homenagem ao Mestre Quintana:

A coisa

"A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita..."

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Hoje me veio uma memória de quando eu era uma jovem de apenas 13 anos e comecei a trabalhar como operária em uma fábrica de calçados... tudo que eu queria na época era poder dedicar meu tempo aos estudos, queria ter tempo para ler, para pensar, para escrever, porém o que eu fazia era passar mais de 8 horas em pé fazendo sapatos. Naquela época eu sonhava com uma fase da vida em que eu não precisasse fazer um trabalho robótico e manual, desejava fazer algo intelectual, que usasse o raciocínio e a parte mental. 

Pois bem, de lá para cá, quase 30 anos se passaram e há mais de 20 anos eu trabalho como tanto desejava, porém hoje estou mentalmente sobrecarregada e me vi por alguns segundos lembrando daqueles dias em que eu fazia sapatos e que tinha "a cabeça livre"... lembrei de como era entrar na fábrica, fazer meu trabalho e ir embora com uma pressa tremenda, mas sem pesos, lembrei de como meu corpo cansado (das 8 horas em pé durante o dia mais as 4 horas de aula durante a noite) simplesmente apagava e caía em um sono profundo. Me deu saudade da energia física que na época era outra, mas sobretudo tive saudade da ignorância, mas não no sentido pejorativo da palavra e sim daquela ignorância que era uma bênção, pois me poupava de muita coisa. 

É, aquela menina conseguiu adquirir muito do conhecimento pelo qual tinha tanta sede, mas assim como se sentia aprisionada dentro da fábrica, ainda se sente hoje em seus vários trabalhos intelectuais. Um trabalho manual estando em pé o dia todo é cansativo e extenuante, mas pensar não é nada fácil e  muitas vezes quanto maior o entendimento, maior o sofrimento... Só depois de alcançar alguma maturidade pude me dar conta disso, assim como só depois de "ver como as salsichas são feitas" é que me dei conta de tantas outras coisas. Mas a menina que fazia sapatos ainda habita em mim e segue ansiando por liberdade, segue tendo sede de conhecimento e segue buscando sem parar, mesmo que hoje ela já tenha um certo receio do que vai encontrar pois sua inocência foi substituída por uma farta porção de antevidência.


Jarina Cecconello - 30/08/2022

 

 

 

 

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