Homenagem ao Mestre Quintana


Homenagem ao Mestre Quintana:

A coisa

"A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita..."

terça-feira, 18 de outubro de 2022

 O barulho da pracinha

Com seu ranger de balanços,

Atrapalha minha concentração

No sério e metódico trabalho.

Então começo a pensar:

Isso mesmo crianças!

Embalem, embalem bem alto 

E tanto quanto puderem...

Gastem o metal dos balanços!

Sorriam e embalem seus sonhos,

Enquanto vocês ainda os tiverem.



Jarina Cecconello - 18/10/2022

sexta-feira, 9 de setembro de 2022


Eu sou o capitão deste barco:

Já tive os braços fortes e bem firmes no leme

E costumava mirar o oceano com o olhar experiente, 

Pois já passei no mar desta vida

Por muitas intempéries. 

Mas os braços mais fortes também cansam

Quando todo o barco balança e treme.

E nas noites de tempestade e mar revolto 

Se turva até o olhar mais experiente...

Não há como saber qual direção é rumo certo.

Então cerro meus olhos e solto o leme

Para que Aquele que tudo sabe,

Que tudo vê e que nunca cansa,

Ajuste minhas velas através de seus ventos

Para que em águas calmas o meu barco chegue.

E que nesse lugar seguro, 

Meu corpo e meu espírito

Possam descansar e se refazer.

Senhor, eu não desejo fugir das lutas

Que sei que vim enfrentar nestas águas,

Mas minha alma também precisa 

Do Teu refrigério e da Tua proteção.

Oriente meu barco, pois ele se encontra

No meio do nada, no meio do caminho:

Já não posso voltar para o ponto de onde parti 

E ainda não consigo avistar onde preciso chegar.

Me encontro na metade...

Com a metade das forças

E da coragem que um dia tive.

Minhas certezas também já são parcas,

E só Tu poderá me guiar.

Que Teus ventos, mesmo quando tempestuosos

Me direcionem sempre

Para onde for o Teu desejo me levar!














quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Enfim, veio setembro! 

Sua chegada é como abrir uma janela

Depois de entrar em uma casa

Que estava fechada por muito tempo,

Toda escura e empoeirada... 

Que setembro desabroche não só as flores,

Mas também as alegrias! 

Que os passarinhos tragam

Em seus cânticos as boas novas! 

Que as abelhas tragam 

Em suas asas a abundância!

Que possamos abrir a janela

Receber a luz e sacudir a poeira!

Que possamos respirar fundo

Os revigorantes ares de setembro

E seguir semeando as flores

que queremos colher pelo caminho!

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Hoje flagrei-me refletindo no tanto de vezes que já ouvi a expressão "fulano quer ser o que não é", e mentalmente rebati essa afirmação com a pergunta: - mas e quem não quer?
Acredito que nós seres humanos não conseguiríamos viver sem desejar ser aquilo que ainda não somos, pois ninguém nasce sendo um ótimo profissional ou um atleta de alto nível por exemplo... todo ótimo profissional e todo atleta de alto nível um dia começou desejando se tornar o que veio a ser. A nossa maior mola propulsora é justamente o desejo de nos tornarmos melhores e seja em qual aspecto for, todos, sem exceção temos o que melhorar.
Um exímio músico pode não ser bom em cuidar de suas finanças, um excelente vendedor pode não ser bom na cozinha... os exemplos poderiam ser infinitos.
Por óbvio, todavia, que o fato de desejarmos ser algo que ainda não somos não deve nos fazer esquecer aquilo que somos, nos trazendo falta de humildade e empatia. Devemos ter o olhar no ponto onde queremos chegar, sem esquecer porém o ponto de onde saímos, pois a vida passa muito rápido e no fim dessa jornada pode ser que as nossas conquistas não tenham tanto peso se comparadas com o impacto que causamos no ambiente e em todos que conosco conviveram.
Mas que possamos sim, acreditar no nosso potencial, desejar ser o que ainda não somos e enfim nos tornar aquilo que ainda não somos, mas que acima de tudo continuemos a infindável tarefa de nos tornar melhores do que já fomos, pois nossa vida certamente acabará antes que a tenhamos concluído.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Hoje me veio uma memória de quando eu era uma jovem de apenas 13 anos e comecei a trabalhar como operária em uma fábrica de calçados... tudo que eu queria na época era poder dedicar meu tempo aos estudos, queria ter tempo para ler, para pensar, para escrever, porém o que eu fazia era passar mais de 8 horas em pé fazendo sapatos. Naquela época eu sonhava com uma fase da vida em que eu não precisasse fazer um trabalho robótico e manual, desejava fazer algo intelectual, que usasse o raciocínio e a parte mental. 

Pois bem, de lá para cá, quase 30 anos se passaram e há mais de 20 anos eu trabalho como tanto desejava, porém hoje estou mentalmente sobrecarregada e me vi por alguns segundos lembrando daqueles dias em que eu fazia sapatos e que tinha "a cabeça livre"... lembrei de como era entrar na fábrica, fazer meu trabalho e ir embora com uma pressa tremenda, mas sem pesos, lembrei de como meu corpo cansado (das 8 horas em pé durante o dia mais as 4 horas de aula durante a noite) simplesmente apagava e caía em um sono profundo. Me deu saudade da energia física que na época era outra, mas sobretudo tive saudade da ignorância, mas não no sentido pejorativo da palavra e sim daquela ignorância que era uma bênção, pois me poupava de muita coisa. 

É, aquela menina conseguiu adquirir muito do conhecimento pelo qual tinha tanta sede, mas assim como se sentia aprisionada dentro da fábrica, ainda se sente hoje em seus vários trabalhos intelectuais. Um trabalho manual estando em pé o dia todo é cansativo e extenuante, mas pensar não é nada fácil e  muitas vezes quanto maior o entendimento, maior o sofrimento... Só depois de alcançar alguma maturidade pude me dar conta disso, assim como só depois de "ver como as salsichas são feitas" é que me dei conta de tantas outras coisas. Mas a menina que fazia sapatos ainda habita em mim e segue ansiando por liberdade, segue tendo sede de conhecimento e segue buscando sem parar, mesmo que hoje ela já tenha um certo receio do que vai encontrar pois sua inocência foi substituída por uma farta porção de antevidência.


Jarina Cecconello - 30/08/2022